Sentido

Um dia acreditei que tudo faria sentido. Um dia, é claro. Hoje vejo que o mundo é um apanhado de histórias sem pé nem cabeça. Uma coleção de sentimentos soltos ao vento.

Se choveu, não foi por sua causa. Aliás, os olhos azuis já não me encantam tanto. Era como se o início fosse apenas uma palavra. Esperança que se ia a cada encontro e dias de verão cada vez mais quentes.

Acreditei pois acreditava em quase tudo.

F.

Então ficamos assim

 

Sempre que posso dou uma passada nesse blog. Gosto de ler sobre os sentimentos alheios. Talvez, mais do que isso, gosto de ter meu espaço para falar o que sinto. Sem precisar me identificar ou coisa do tipo.

O anonimato elimina qualquer vergonha. Nos protege. Posso falar de quem eu amo ou de quem deixei de amar. Posso falar da raiva que sinto, da inveja e de tudo mais baixo que há em mim.

Pessoas felizes, às vezes, me cansam. Assim como pessoas excessivamente tristes. Não gosto de drama e ela não está morrendo. Dor de coração partido é foda, mas passa.

O que eu quero dizer com tudo isso é que, tudo que vivemos e sentimos, um dia, será passado. Sim, até aquela paixão arrebatadora que deixa suas pernas moles. Essa, também será passado. O que nos resta e isso não muda, são nossos olhos.

Não digo, olhos que olham, mas olhos que julgam. Que julgam os outros pela nossa régua moral. É errado ele dar falsas esperanças a ela? É certo ele chorar por outra? E coisas do tipo. Nossos valores.

Tem dias que somos tão rigorosos com os outros, e tão permissivos com a gente mesmo. É como no filme “De olhos bem fechados”, mascarados podem fazer e imaginar os melhores e mais quentes bacanais da cidade.

E de cara limpa? Aliás, quando estamos de cara limpa?

Freud já teorizou sobre as máscaras que precisamos usar pelo bem social. Mas e na cama? E quando você abre sua caixa de ferramentas e tira de lá seus desejos mais sórdidos? E quando você pede para ser subjulgada, humilhada e goza assim? E quando a traição deixa de ser traição e passa a ser cumplicidade e todos ficam felizes?

Nossa máscara social caiu? Quebrou?

Somos nús. Apenas três, o número ideal em qualquer sexo, inclusive no meu. Um, dois três. Cada um vira para um lado, saciados, e vamos dormir, exaustos e suados. Felizes. Boa noite e então ficamos assim. Só não me ligue amanhã. Amanhã ainda é cedo.

L.

Can’t wait

Diga-me a verdade. Apenas e tão somente a verdade. O que passa pela sua cabeça insegura e ingênua. Quero ler seus pensamentos, compreender sua alma. Desejo, não mais seu corpo, mas seu espírito. Quero descobrir seu lado mais obscuro e frágil. A sua parte que te envergonha. Aquela gaveta trancada e esquecida. É lá que quero entrar.

Quero seus desejos, quero você. Agora e depois. Sem desculpas, sem sofrimento, sem tristeza ou alegria. Apenas você em sua forma mais branca, branda e neutra. Quero o amarelo e o azul. Quero as noites claras que ficamos em claro, até amanhecer o dia. Quero os dias quentes de verão e as tardes de outono, quando da janela, vimos as folhas secas ao vento.

Não vou esperar. Seremos apenas um. Sou seu.

B.

 

Um pote de pimenta

Sempre que vejo um pote de pimenta, fico pensando se aguentaria colocar todas na boca de uma só vez. Fico até salivando. A vida é como um pote de pimenta. Das fortes. Quando a ardência de uma passa, você olha e vê que ainda há muitas a serem engolidas.

Talvez fosse melhor se pudéssemos comê-las todas de uma vez só. Arderia. Nossos olhos iriam encher de lágrimas, mas ia ser apenas uma vez. Só naquele dia.

Se pudesse fazer isso, acho que eu faria num domingo. Assistindo Faustão, para a tortura ser completa. Viraria o pote, mastigaria, limparia as lágrimas. Todos os sentimentos juntos ali, misturados, quente. Estômago reclamando, mais lágrimas.

E de repente, a ardência iria passando aos poucos. A dor ficaria mais branda e as lágrimas, raras. Ficaria feliz de ver o pote vazio. Não haveria mais uma só pimenta para arder minha vida, para me fazer chorar. Desligaria o Faustão, colocaria uma qualquer dos Beatles e a vida seria só amor dali em diante.

As pimentas. Elas são bonitas e ainda me fazem salivar. Mas são pimentas.

T.

Coisas do coração

Há, segundo os especialistas nisso, uma pessoa certa no mundo para você. Se pensarmos que essa pessoa certa pode estar em qualquer lugar do mundo, inclusive na China, e o pior, sendo um chinês, essa notícia é muito triste. (Pausa para secar as lágrimas. Retomando…)

Mas numa boa, o que é certo? Quem é errado? Eu já fui a errada para alguns, e já deixei escapar outros que tinha certeza que eram os certos para mim. Já chorei muito por quem não valia nada. Muitas lágrimas, daria pra encher uma piscina. Das grandes.

Hoje olho o perfil de cada um deles no facebook. Só por curiosidade mesmo. E penso: caramba, será que nunca notei essa sobrancelha grossa? Puts, parece uma taturana. Os defeitos parecem latentes. Como pude? Como ele pode?

A cada sete anos, você muda. Aliás, todos nós mudamos. De sete em sete anos, renovamos nosso ciclo de vida e nos tornamos diferentes do que sempre fomos. Essa é a razão para existir a crise dos sete anos nos relacionamentos. Tem gente que fala “caramba, mas eu não reconheço mais seu jeito.” Não mesmo! Talvez nem sua namorada reconheça a si mesma.

Olhar para trás é bom. Você vai descobrir que chorar por ele, também foi legal. Valeu a pena. Digo mais: é bom sofrer por amor. É nobre. Apressa nosso crescimento. Nos torna mais espertas, mais ligadas.

Um dia, o cara certo vai aparecer. Se não aparecer, vou para China. Quero ver se o meu homem está por lá. Foda vai ser achá-lo no meio de tanta gente igual, bando de caras redonda. Vai ser tipo uma partida de pega-varetas. Pega-varetinhas.

Fui-me!

Gabi.

Quem tem medo?

São dias e mais dias em que nada de diferente acontece. Nada no e-mail, no whatsapp, no insta, no face que possa ser capaz de me animar. Nem mesmo a felicidade alheia. Já reparou como as pessoas são felizes nas redes sociais. Como seus pratos são apetitosos, as praias ensolaradas, a bebida gelada, os amigos bonitos e sarados.

Hoje uma amiga postou uma frase que prendeu-me “fuck cancer”. Seria esse o fim da felicidade, ou apenas um pingo de realidade na ilha da fantasia?

Não sei o que se passa em sua vida, talvez ligue mais tarde para descobrir e se for o caso, prestar meu apoio. Mas aquela frase, em meio à tanta felicidade alheia me chamou atenção.

Não tenho medo da morte. Tenho medo da infelicidade. Afinal, a morte é hereditária. Está em nosso DNA morrer. Acho até que as pessoas gostam de morrer, às vezes. Mas a infelicidade não está. Não nascemos para ser infelizes. Nem eu, nem você, nem o gari que limpa a sujeira alheia na rua. Sejamos felizes, menos preocupados em mostrar e mais focados em viver. É isso. E se é assim, sim.

T.

Talvez um dia

Um dia percebi que a vida de adulto era chata. Quando adolescente, imaginava a liberdade que os 18 anos me trariam. Carro, noites, bebidas, amigos, namoradas. Não imaginava que a liberdade traz consigo responsabilidades.

Quando se é adulto, as coisas ficam mais densas, pesadas. Há contas a serem pagas, promessas a serem cumpridas. Perde-se um pouco da liberdade, da loucura inocente. O improviso dá espaço a um terno preto e quente. Aos poucos, nossos sonhos vão ficando esquecidos nas gavetas.

As promessas que fizemos quando jovens, as cartas com declarações de amor, retratos com sorrisos, nossa viagem de formatura e tudo de mais simples e belo, se perde nas tantas mudanças da vida. De repente percebemos que a vida ficou chata. Que não podemos mais dormir depois do almoço, que as paixões e os amores se tornaram contratos a serem cumpridos. Chato.

Quando jovem, sonhava em ser músico. Depois quis ser escritor, depois médico, depois advogado, depois escritor de novo e músico. Até que tive que fazer uma escolha e prestar vestibular. Cometi um erro. Mudei de carreira e de faculdade. Me formei tarde. Passei a sonhar menos, trabalhar mais.

Foram amores e desamores. Me apaixonei por quase todas, amei algumas poucas. E os dias seguem, repetitivos, entediantes. Um dia vou olhar no espelho e talvez não me reconheça mais, ou pior: talvez não lembre da minha cara de adolescente, dos meus sonhos, dos amores, das histórias. Talvez um dia, o mundo me faça esquecer de mim mesmo. Talvez.

Pé no chão e vamos nessa!

Viver. Já parou para pensar no significado dessa palavra? “Viva!” – e dessa?

Viva! É a própria celebração. É não estar morta. É andar descalça numa rua qualquer, aceitar o que o destino oferece, contentar-se com um cachorro quente, requentado às 4 da manhã, depois de uma balada trágica.

É cantar alto, até ficar rouca. É dizer sim a tudo e não a quase nada. É esquecer das regras, quebrar paradigmas, esquecer toda a caretice do mundo.

Porque o mundo é careta, gira só para o mesmo lado, sua rotação demora 24 horas, há 4 estações e 365 dias por ano. Exceto nos anos bisextos. Mas a grosso modo, o mundo é sempre uma repetição: o sol nasce ali e se põe lá. A lua vai estar quase sempre no mesmo lugar.

Mas e você? Se não romper com essa rotina, vai terminar a vida numa cadeira de balanço, esquecida em algum asilo por aí.

Não!

A vida quer mais. E eu quero mais da vida. Sempre fui assim, desde criança: odiava ballet, preferia meninas, ao invés de meninos e sempre me senti bem. É claro, tem dias que não ajudam, mas na boa, quando isso acontece, faço o que sei fazer de melhor: beber. Sim, porque o mundo é muito mais alegre depois de algumas doses.

E foda-se o que vem pela frente. O importante mesmo, é que venha só pela frente. Feliz 2014.

Gabi.

Acordei Tarde

Um dia acordei tarde. Tão tarde que não havia mais nada em meu quarto além das roupas pelo chão. Ela tinha partido. No travesseiro ainda um resquício do seu perfume e só. As lembranças nas paredes escuras me atormentavam. Era uma triste manhã. Tão triste que fazia frio, apesar do calor. Não dava para ouvir nada, apenas alguns carros. E foi assim que percebi que era tarde demais para tudo, para acordar ou para voltar a dormir. Ela passou, de forma rápida e intensa. Mas foi só. Só que fiquei. Era tarde.